Em Outubro de 2020, a baixar a guarda do maldito confinamento e sem saber que a ele voltaríamos em breve, ávidos de liberdade e sequiosos de ar mais respirável, decidimos aceitar o desafio dos primos Carlos e Jorge Laurentino e partilhar com eles uma das suas aventuras a pedal.
O relato que de seguida partilhamos é da autoria do Jorge e é pelas suas palavras que esta jornada se eterniza. Por nós, repetíamos já hoje. Obrigado pela experiência inesquecível e pela amizade constante. Cá vai:
Descida do Rio Mondego, partindo de Nelas, com passagem por Caldas da Felgueira, Penacova, Coimbra, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz, aproveitando o feriado de 5 de Outubro numa segunda feira, três ou quatro dias a pedalar e uma tarde… a desbravar mato.
Três com bicicletas de touring, vulgo pasteleiras, e o Carlos com a sua gravel, versáteis, revelaram-se adequadas para os pisos encontrados.
Opção de campismo, só usada uma noite em que… choveu
Com Carlos Crispim Laurentino, João França, Jorge Laurentino e Tiago Silva
Dia 01 – 02 de Outubro de 2020
Nelas – Caldas da Felgueira – Canas de Senhorim – Nelas – Vale de Luzianes – Caldas da Felgueira
37,5 Km 551 m↑ 03:05
Comboio Intercidades das 9:30 de Lisboa para a Guarda. O Carlos entra em Vila Franca de Xira.
A ideia inicial do Jorge e do Carlos era, viajar de comboio até à Guarda e daí subir à nascente do Mondego, cruzar a Serra da Estrela e descer em direcção ao Sabugueiro, Senhora do Desterro, São Romão e Seia, rumando daí ao ponto de encontro com o João e com o Tiago, no dia seguinte em Carvalhal da Loiça, já no concelho de Nelas. A Tempestade Alex recém-chegada à Península com ventos fortes, chuva e baixa muito acentuada de temperaturas sobretudo no interior centro, levou- nos a ficar em Nelas, pedalar na EM 644 até Caldas da Felgueira, almoçar e apalavrar quarto na pensão Mondego, à beira… do Mondego, onde ficámos bem instalados e em conta.

Depois de um bom almoço, mantivemos um “dedo de conversa” com a dona do restaurante, que nos permitiu ter contacto com alguém que ainda revelava de forma indelével as marcas de terror deixadas em quem viveu o drama dos incêndios de 2017. Dentro da sua propriedade, com as chamas a cinco, dez metros a lamber a casa de habitação, a destruir palheiros e construções antigas, alfaias… vidas… Com as bicicletas e as costas livres de carga, subimos até Canas de Senhorim, reconhecendo à distância os locais do drama. Passamos por enormes áreas de terreno cobertas de acácias, praga invasora que se desenvolveu muitíssimo e sem controle após os incêndios. Em Canas, passeámos nas estreitas e empedradas ruas do centro e visitámos os jardins do solar da família Keil do Amaral, que conheci há anos atrás quando aí decorreu um estágio para o espectáculo “Trilhos” do Grupo de Teatro “o bando”. Saímos de Canas de Senhorim em direcção à EN 234 e a Nelas, mas aproveitámos para testar as bicicletas e as pernas num atalho a corta-mato. Apanhando finalmente a EN 234, seguimos em direcção a Nelas onde à saída virámos à direita para Senhorim, na EN 329-2 que abandonámos uns quilómetros à frente para enveredar pelo CM 1479. No cruzamento deste com o CM 1475, virámos à esquerda para ir dar uma vista de olhos na Orca do Pinhal dos Amiais, monumento megalítico onde se encontraram indícios arqueológicos funerários compatíveis com a Idade do Bronze. Devidamente sinalizado, com indicações desde longe e com um quadro explicativo no local, é por entre fetos e arbustos que se chega junto da Orca. Não incomodando demasiado, a profusão de arbustos e ervas à volta e dentro da Orca não deixam de contribuir para um aspecto de negligência e abandono. Talvez ganhasse estando limpo e cuidado…! Mantendo-nos no CM 1475, mas já em direcção a oeste, passamos na pequena aldeia de São João do Monte, empoleirada no alto do monte que lhe dá o nome. Disfrutamos da vista acidentada para o vale de Luzianes, enquanto descemos durante cerca de 4 Km com uma inclinação apropriada para um bom teste ao aquecimento dos travões.

Chegamos cá abaixo à Póvoa de Luzianes onde cruzamos o Rio do Castelo imediatamente antes deste desaguar no Mondego logo ali à frente. Acompanhamos já o Mondego, que aqui ainda define os limites dos distritos da Guarda e de Viseu, mas que um quilómetro mais à frente já separa Viseu de Coimbra. É neste ponto que se encontram os três distritos. Cruzamos a EN 231 entrando num caminho asfaltado em direção a Caldas de Felgueira sempre com o Mondego à nossa esquerda e estudando já o caminho de terra batida que evolui na margem oposta. Fica debaixo de olho para o dia seguinte.
Chegados a Caldas de Felgueira, e depois de descansar um pouco, sair à procura de jantar. O Restaurante da Pensão Mondego estava fechado. A sua dimensão, o parque de estacionamento amplo, a dimensão da esplanada, os artefactos para cozinhar porco no espeto, indiciavam que teria havido ali, há tempos atrás, um movimento intenso, muito diferente do local deserto que já se nos deparara à hora de almoço e agora de forma mais evidente, com o cair da noite. Os fogos florestais de Outubro de 2017 causaram uma enorme perda dos visitantes às termas das Caldas da Felgueira. O recente confinamento devido à pandemia de Covid em 2020, acentuou o abandono daquele destino de repouso e tratamento, escancarando as portas a um previsível descalabro da economia da terra. Ainda aberto o Restaurante da Pensão Moderna, permitiu que consolássemos o estômago para a noite.
Dia 02 – 03 de Outubro de 2020
Caldas da Felgueira – Felgueira velha – Carvalhal da Loiça – Caldas da Felgueira – Beira do Rio
28,8 Km 550 m↑ 04:00
Acordar e tomar um bom pequeno almoço no café Mondego para começar a pedalar à descoberta do tal caminho da margem esquerda do Mondego que tínhamos avistado na tarde do dia anterior.

Saímos para EN 231-2 descendo para a ponte sobre o Mondego. Na outra margem recebe-nos uma antiga fonte, com um painel de azulejos ainda relativamente conservados, com o mapa das estradas do distrito de Coimbra. Uma das muitas fontes que em tempos idos se distribuíam ao longo das estradas portuguesas. Por detrás do muro de pedra uma antiga e magnífica casa de cantoneiros, recuperada. Magníficas as janelas de alumínio tão típicas da época e da região das beiras interiores!!! Subindo até Felgueira Velha, no ponto de início do GR48, parámos para ver indicações sobre esta Grande Rota num quadro debaixo de uma figueira. Não que tivéssemos fome, mas os figuinhos deixaram-se comer com tanto gosto…! Entrámos na aldeia e descemos a Rua Principal, empedrada, que nos levou até à margem do rio. Logo em frente uma pequena ilha frondosa. Ao longo da margem, avançando para montante, percorremos o tal caminho de terra batida, observando excelentes e frondosos locais para piqueniques e acampamento. Esse troço é um belo aperitivo para começar o GR48, muito agradável, calmo e sugestivo. Um furo foi a contrapartida por trilhar tais caminhos. Continuámos por um troço menos interessante do ponto de vista do piso e do perfil, mas com uma vista retemperadora para uma zona mais bravia do vale onde corre o Mondego. Vemos dali a ponte na EN 231 onde já tínhamos estado no dia anterior. Entramos na EN 231 e subimos em direcção a Carvalhal da Loiça. Na primeira rua à esquerda, viramos para apreciar e fotografar a antiga ponte românica. Bonita, pequena e bem conservada, resiste na sombra da nova ponte, feia e utilitária. À beira da ponte, uma figueira muito bem fornecida de figos madurinhos q.b. Uma dúzia de figos, ou mais, cumpriu a sua função no controle da glicémia e na gestão do atraso para o almoço… Um velhote aproximou-se de nós, um curioso habitante local com quem encetámos conversa. Foi ele que nos ofereceu a ponte antiga e só não a trouxemos porque os alforges tinham ficado na pensão… Na continuação da conversa voltam a surgir os incêndios florestais de 2017 e o relato de quem perdeu o que tinha para garantia de uma velhice mais desafogada, depois de uma vida de sacrifícios emigrando. Vinhas e pinhais e floresta que não voltam a ser plantados. Subimos em direcção à Anta do Fontão ou do Carvalhal da Loiça, no caminho para Paranhos da Beira. Mesmo junto à estrada, lá está a Anta na sua imponência milenar. Com dois esteios quebrados, conserva ainda no topo, a enorme e pesadíssima mesa em perfeita posição horizontal. Nos dias de hoje deve dar abrigo a pastores e animais surpreendidos por temporais repentinos. Algumas chapadas de cimento vedaram fendas e fissuras nas pedras e nos intervalos entre estas. Podia ter-se evitado… Dado o adiantado da hora optámos por regressar pela EN 231, descendo até à ponte que tínhamos avistado de manhã e tomando o mesmo caminho que tínhamos feito na tarde do dia anterior até Caldas da Felgueira.
Aí, no restaurante Mondego já estavam à mesa o João e o Tiago. Estava completa a equipa para tão importante expedição. Chegados no comboio dessa manhã e vindo directamente para Caldas da Felgueira para a mesa de almoço. Depois de almoço variado e de mais alguns dedos de conversa com a dona do restaurante, partimos para apanhar o GR48 na outra margem do rio. Com placas e postes indicadores visíveis e relativamente frequentes no início, estes depressa foram escasseando e/ou foram-se ‘camuflando’ por entres ervas altas de um caminho pouco cuidado e com trechos pouco cicláveis. Sim, todos tínhamos consciência de que se tratava duma rota pedestre! E é num contexto de subidas e descidas, cruzamento a corta-mato de encostas cheios de ervas que ‘alguém’ se exaspera com a Maria Antonieta, habitante do reino de Komoot, quando ela gritou de dentro do GPS: “- Now, turn left…!”, “- Now, turn left…!” Só que, ‘left’, era a subir…!!! De facto, estávamos todos fartos de subir…! Resolvemos, portanto, “To turn right…” apesar dos protestos da Maria Antonieta que regularmente comunicava: “- Your way is fifty meters behind you…”, “- Your way is one hundred meters behind you…”, “- Your way is two hundred meters in the left of you…” (ou seja, no alto da encosta…) À direita estava o rio, calmo e pedregoso, agradável à vista. Nas margens planas, apetecíveis lameiros cheios de uma erva que qualquer ovelha apreciaria verdadeiramente… Tinha de haver caminho por ali. E assim, quatro adultos responsáveis e mediamente inteligentes, saudosos dos filmes do Indiana Jones e dos livros de aventuras das suas infâncias, avançaram ao longo da margem do rio. Cada vez menos plana, cada vez mais pedregosa e, sobretudo, cada vez mais povoada de acácias hirsutas e invasoras de todo o exíguo espaço da margem. Tudo isto, levando à arreata, os seus corcéis, ajoujados de víveres, como se espera à partida para aventuras desta grandeza. Os corcéis, inteligentemente, foram-se libertando de seus cavaleiros e decidiram esperar numa pequena clareira na floresta acaciana. Mas os cavaleiros apeados, esses, continuaram…
Foram, portanto, momentos muito bem passados nessa tarde, ora segurando ramos para que o companheiro que vinha atrás não levasse com eles nas trombas, ora pisando outros para não passarem rasteiras aos incautos, ora estendendo outros para que serem agarrados e ajudar a subir umas pedras ou, para evitar que alguém rebolasse por essas pedras abaixo. E, isto durante horas…! Mas tudo o que é bom tem um fim e, lamentavelmente, chegámos ao fim! Não sei se se poderá dizer ‘ao fim do caminho’. dado que esse, há horas que tinha desistido de nos acompanhar. Mas chegámos finalmente ao Ponto de Obrigatório Retorno…! O que resta de uma antiga azenha. E se aquele local deve ter sido bucólico há sete ou oito décadas atrás…!? Facilmente se pode imaginar, os burros, (outros, não estes…), a chegar ali carregados com sacos de cereal para deixar ao moleiro… sacos empilhados à porta do moinho… os agricultores a dar água aos burros, os agricultores sentados nas múltiplas pedras, os agricultores abrindo os seus sacos feitos de remendos de pano, tirando de dentro uma buchinha e conversando… Enfim, uma festa! E o moinho, a moer!
Mais ou menos como moídos ficámos quando tivemos de encetar o caminho de regresso. Dado o adiantado da hora, resolveu-se, para não dar mais barraca, montar o acampamento e deixar o regresso ao track para a manhã seguinte. Tal como os agricultores e os moleiros, montadas as tendas, abrimos os alforges e começámos a retirar os acepipes para o jantar. Sentados nas pedras e na areia à beira rio, enquanto a noite caía e o silêncio se instalava à volta, degustámos as iguarias trazidas de tão longe. Adormecemos de barriguinha cheia: dos víveres e da aventura. Afinal, durante aquela tarde, tínhamos cumprido uma longa e intensa etapa de… oito (8!) Km…. Ainda circularam uns Voltarens na tentativa de atenuar maleitas osteomusculares… (coisas de velhos…!) Ah, choveu durante a noite.
Como previa o boletim meteorológico, ou seja, sem surpresa nem novidade, as franjas do Alex ainda salpicaram por ali.
Dia 03 – 04 de Outubro de 2020
Beira rio – Baloiço – São João das Areias – Coiço – Penacova
60 Km 1101 m↑ 05:40
Que bom que é dormir no campo, Adelaide. Acordar de madrugada com os passarinhos. Temperatura amena. Víveres suficientes para o pequeno almoço. Desmontar o acampamento. Satisfação com as tendas. Tudo pronto e ala que aqui vamos nós: O Regresso ao Track! Na véspera entre aplicações, GPS’s e bocas diversas, chegara-se à conclusão que em matéria de voltar para trás, tínhamos todos atingido o nosso limite! Portanto se não podíamos ir em frente e não queríamos voltar (mais) para trás, restava-nos fazer uma cedência e subir a encosta até encontrar o track! Era isso. E pelo que mostravam os mapas, não havia lugar a dúvidas, era sempre em frente, e também era sempre a subir…! Ainda houve algumas frustres tentativas de subir a pedalar. Pouco consequentes e desde cedo condenadas ao insucesso…! Houve, os que nem tentaram… Não sabíamos ainda, mas o nosso primeiro objectivo era o baloiço. Era só subir dos 210m aos 396 em 2,5km… bocadinhos a 12%, a 14%, a 16%… Simples! Cinquenta minutos inteirinhos a subir. Lá se fizeram! O certo é que tirando três ou quatro de nós, todos os outros chegaram lá a cima de bom humor… O Baloiço ali estava, imponente. Apareceu de surpresa à beira do precipício. Baloiçámos no baloiço, uns sim outros nem por isso. A partir do reencontro com o track foi uma agradável viagem Touring-gravel, a gerir a água que escasseava e sem encontrar onde reabastecer. De notar o facto de também não termos encontrado qualquer pastelaria aberta… Aldeias habitadas sem se ver ninguém e aldeias em ruínas, efectivamente abandonadas e desertas. Uma casa isolada. Casas de férias. E sempre a paisagem desafogada com o rio a correr lá em baixo. Chegamos ao final do Estradão do Vale de Ferro quando encontrámos a ER 230 e cruzámos o rio para a margem direita, na ponte da Azenha, mas rapidamente saímos à esquerda para o estradão que liga o Vale da Azenha à Ponte de Midões. Por este estradão seguimos acompanhando os meandros do rio. Descaradamente, há quem invada um hotel canino para se ir reabastecer de água. Prosseguimos com o desenho do estradão a emular o traçado do rio. A orografia, agora, permite que o rio corra e que o seu leito de cheia se alargue espraiando- se em ambas as margens. O leito do rio apresenta margens com prados verdejantes e areais apetecíveis, entre os quais se vão desenhando a traço grosso os meandros do Mondego. Prosseguimos pela M 635 durante cerca de um quilómetro para sair à esquerda para um outro estradão que também vai acompanhar o rio daí em diante até já perto de Tábua. Muito agradável este caminho. Vão aparecendo as margens com as marcas deixadas pela subida das águas. É o efeito das variações de cota das águas na Barragem já ali à vista. Um troço de caminho, nem sempre plano, com um ou outro obstáculo, alguma exigência aqui e ali e um ou outro desvio de rota. Mas estavam muito bem compensadas as agruras do início da manhã. Gradualmente a vegetação invasora das acácias vai criando uma parede que nos impede de ver o rio, apesar de o sabermos ali tão próximo. Atravessando este corredor chegamos a uma antiga estrada que vem do fundo da barragem. Vamos subir. Agora tínhamos o almoço à espera em São João das Areias. Lá se tinha marcado encontro com o pai e irmã do João. O Cantinho do Alentejano, que nos proporcionou um almoço muito agradável em óptima companhia. A conversa fluiu e havia temas para continuar por muito mais tempo, mas tínhamos de voltar à estrada e a dar ao pedal.
A aventura da tarde do dia anterior, comprometeu o cumprimento das etapas tal como estavam previstas. Era preciso rectificar, chegando nessa noite a Penacova para ser viável atingir o objectivo de chegar à Figueira no último dia. Assim, optou-se por abdicar do trecho btt entre Tábua e a Barragem da Aguieira, por estradão com perfil acidentado, e atalhar para apanhar a EN 234 à saída de São João das Areias, e por ela chegar à EN2. Foi seguindo por esta tão na moda e mítica estrada que chegámos ao Chamadouro e atravessámos o viaduto do IP3 sobre o Dão a meia dúzia de metros da sua foz. Avançando pela via paralela ao IP3 até ao entroncamento com a N 228, descemos depois em direcção à Barragem da Aguieira, onde se justificava a paragem para admirar a dimensão da estrutura e a beleza da albufeira ao final da tarde. É aqui que se encontram os dois rios, Dão e Mondego. Passando sobre a barragem virámos à direita na EM 2 descendo da cota do cimo da barragem até ao nível do rio. A estrada que nos espera lá em baixo é a antiga EN2, que se mantém na margem e à superfície até Oliveira do Mondego. Aqui é ‘submersa’ durante 900 metros pelo IP3, que temos de percorrer lado a lado com os carros. Lá em cima no acesso ao Coiço a EN2 volta à superfície. Aí chegados, marcámos logo dormida na Pensão Lampião de Penacova para ficar descansados. Descemos para Porto da Raiva e passamos sobre a foz do Alva.
É a EN2 que nos leva a Penacova com a obrigatória paragem diante da Livraria do Mondego. Pensão Lampião, uma mini, banho, mudança de roupa e… jantar. Jantar bem ajeitadinho no Côta d’Azenha, com o agradável patrocínio de uma empresa de reparação e venda de bicicletas sediada na Arrentela mesmo junto à Baía do Seixal…. Bem hajam!
Dia 04 – 05 de Outubro de 2020
Penacova – Coimbra – Figueira da Foz
70 Km 251 m↑ 04:50
Saída cedo e com tempo muito fresquinho, após tomar um pequeno almoço fracote no café junto à ponte, apesar de tudo, um luxo asiático nos tempos que vão correndo. Do outro lado da estrada, começa a ER 110. Talvez a estrada mais bonita que já percorri. Sobe até meia encosta dos montes que envolvem o vale por onde corre o Mondego e nessa cota se vai mantendo, serpenteando na ondulação da orografia, tal como o rio lá em baixo se anicha na base dos mesmos montes. Correm paralelos, rio e estrada. Avistam-se do alto, nas margens, pequenas praias apetitosas e inacessíveis. Só em meia dúzia de locais é possível chegar junto do rio. Este, revela-se rebelde e doce, ora galgando enormes blocos de granito e caindo em pequenas cascatas, ora contornando e repousando suavemente nos caprichos aplanados pela água. Alterna meandros acentuados com sinuosidades dolentes. À direita, num muro ocre, uma pintura desbotada: Otelo à Presidência…! Quando damos por isso estamos na Portela. O Retiro do Mondego está encerrado. Lá se foi a possibilidade de provar alguns petisquinhos bem saborosos. Entramos em Coimbra, que atravessamos de forma rápida até à Ponte de Santa Clara. Largo da Portagem. Finalmente conseguimos encontrar uma pastelaria aberta!!! Não hesitamos e com um tempo muito agradável e convidativo sentamo-nos na esplanada do Café Montanha, a reforçar os açúcares, ou seja, a comer bolos, bolos e bolos!!! Olhamos para o Mondego ali ao lado, pacífico e controlado, um lago à beira da cidade. Acabado o matabicho, há que recomeçar, de forma a poder chegar à Figueira a horas de apanhar em Alfarelos, o comboio das 16 e qualquer coisa para Lisboa, cujos bilhetes já estão adquiridos. Recomeçamos em direcção ao Choupal, num pedaço de viagem também muito agradável, simpático e plano. Primeiro em ecovia, depois numa estrada antiga e em mau estado, mas que cumpre o seu papel. O rio, corre a nosso lado. Há zonas em que não o vemos. Corre, mas já sem a sua alma livre: canalizado e sem identidade. É triste privarem assim um rio da sua alma rústica, irrequieta, livre e rebelde. A paisagem envolvente, está ao mesmo nível: desinteressante. Resultado da grande extensão de exploração agrícola intensiva, hiperdimensionada. Passamos pelo Centro de Alto Rendimento, sem ninguém. Avistamos Alfarelos na outra margem. Deste lado agora é Montemor-o-Velho. E voltamos à paisagem sem novidades sem surpresas. Restam uns choupos seculares, de pé aqui e além, assinalando que antigamente passava ali um rio. E que o rio ali, aproveitando a planura se espraiava por quilómetros.
Chegada à Figueira da Foz. Meia dúzia de minutos para apanhar o comboio para Alfarelos, onde ainda se conseguiu comer uma bucha no café em frente à estação. Entrar no comboio para Lisboa. Paragem em Vila Franca de Xira. Desdobramento para o Seixal em serviço combinado com a Transtejo e com forte pedalada desde Santa Apolónia. Mesmo a horas de sentar à mesa para jantar!
Fica para a memória uma grata e bela voltinha com quatro dias bem preenchidos de incidências e belas recordações.
Obrigado Companheiros! JL
20 de Fevereiro de 2021